2.18.2003

(R).E.v.o.l.u.ç.ã.o.

O ser humano é pensante por natureza. Mas eu fico realmente intrigada com a incapacidade cognitiva de alguns. Falta de esperteza mesmo. Coisas realmente simples, que não conseguem ser assimiladas. E eu achava que eu que era a loira-mor. Mas uma coisa que realmente me tira do sério, é gente que, além de ter limitações, é teimosa e não tem o mínimo de humildade, que não dá o braço a torcer, mesmo vendo que está errada, que fica batendo a cabeça na parede mesmo sabendo que tá doendo. Eu nunca tive vergonha de dizer que não sabia algo, e sempre peço para o proprietário da informação compartilhá-la comigo. Estou sempre buscando aprender mais, desde coisas corriqueiras a assuntos realmente importantes, dentro das minhas próprias limitações. Se sei alguma coisa, nunca me recusei a ensinar, a dividir conhecimento. E faço isso quantas vezes forem necessárias, basta que a pessoa esteja realmente interessada. Me desdobro em cinquenta, busco novos termos, procuro palavras, argumentos, até me fazer entender.

Hoje era pra ter sido uma simples aula prática de taxonomia, be-a-bá de tudo, para aprendermos a classificação dos seres vivos e, principalmente, entendermos a evolução e o porquê cada ser vivo está classificado daquela maneira. E foi suficiente pra me deixar bufando. Um joguinho simples, com várias figuras de um bichinho que parecia uma gelatina, algumas com pezinhos, rabo, olhinhos, pelos, asas ou braços. Cabia a cada grupo organizar as imagens, buscando entender como e porque o bichinho evoluiu, colocando-as em ordem. Larinha pacientemente com sua companheira de bancada analisando cada imagem, explicando o porquê do surgimento de cada nova estrutura, chegou a um consenso e finalmente conseguiu organizar uma sequência lógica e coerente. Eis que Larinha vai à bancada vizinha atender os pedidos da turminha perdida, que não estava entendendo como fazer. Quando retorna, todas as figurinhas bagunçadas.

*Me* - "Porque você alterou a ordem?"
Porta - "Ahh... porque sim."
*Me* - "Não, porque sim, não. Tem que ter uma explicação. A gente tinha concordado que aquela era a melhor classificação. Onde você acha que estava errado?"
Porta, pegando a figura do bicho peludo - "Ah... eu acho que ele perdeu pelos na evolução e não ganhou. E que esse aqui (mostrando um bicho com forma já, mas sem estruturas) é o primeiro de todos"
*Me* - "Mas por que?"
Porta - "Ah, não sei. Porque eu acho, ué"
*Me* - "Não, você tem que saber explicar o porquê. Pode até ser essa classificação, mas você tem que explicar pro professor porque escolheu essa ordem. Você não pode falar que peixe e baleia são da mesma família só porque vivem na água."
Porta - "Mas eu não sei explicar. Eu só acho que é assim."
*Me*, explicando tudo de novo - "Tá vendo esse aqui? É o mais primitivo de todos. Não tem nenhuma estrutura. E esses três são da mesma forma. Só que esse último já tem tentáculos, então, é mais evoluído que o primeiro. (organiza os três bichinhos na bancada). Concorda?
Porta - "È... faz sentido."
*Me* - " E esses aqui, tá vendo? Os tentáculos viraram 'bracinhos', e ele tomou essa forma, pra depois ficar assim. Aí, ele teve dois tipos diferentes de evolução, uma família criou olhos e boca, a outra, nariz e asas, tá vendo?"
Porta, fazendo cara de que tinha entendido - "É verdade!!! Então, esse e esse não são da mesma família! Eles vieram todos desse aqui, mas não são iguais".
*Me* - "Claro que não, é só olhar o desenho. Esses que criaram boca, continuaram evoluindo. Tá vendo os dentes? Antes eram serrilhados, o que permitia rasgar o alimento. Conforme foram evoluindo, os dentes foram ficando retos, provavelmente porque mudaram a alimentação (colocando cada figura na ordem), e, por último, criaram pelos pra se adaptarem ao ambiente, que provavelmente era frio".
Porta - " Ahhhhhh...entendi."
*Me*, aliviada de ver tudo em ordem novamente - "Imagina essa sequência, agora, conforme nós conhecemos. (mostrando as figuras novamente). As bactérias e protozoários, os peixes, os anfíbios e répteis, tá vendo esse aqui ó, perdeu o 'rabinho', as aves e finalmente os mamíferos".
Porta - "Nossa, é verdade! Então ele criou pelos mesmo!"
*Me* - "Isso. Já volto".

Larinha novamente sai em auxílio dos colegas de bancada. Quando retorna, tudo bagunçado, de novo. O diálogo acima se repetiu, com menos paciência, por mais duas vezes (sim, depois de novamente arrumar tudo e Dona Porta dizer que tinha entendido, voltou a tirar tudo da ordem, só sossegando quando o professor veio até a bancada e explicou a mesma coisa, de novo).

E o que mais me deixa decepcionada nisso tudo, é que essa figura quer ser professora. Não tem interesse científico nenhum, está ali simplesmente por estar (palavras dela mesma, no bate-papo informal que rolou no intervalo), porque achou que Biologia seria mais fácil que Química ou História. Sim, queridos amigos. Seus filhos estarão na mão desse tipo de profissional, que não saberá explicar porque o morcego tem asas e é mamífero. Mas estamos apenas no começo da jornada. Somos 110 alunos espremidos em uma pequena sala. Até o final do semestro, creio que esse número caia e bastante, como aconteceu com a turma de Direito. De 180 no início, terminamos com 76 alunos na sala. Eu me apego na esperança que esse tipo de profissional não dê conta do recado e desista do curso. Dia 23 de março teremos o nosso primeiro trabalho de campo. E já foi avisado que não será fácil. Quem não está disposto a aprender, deveria ficar em casa assistindo Marcia, João Kleber, Ratinho. Ou simplesmente dormindo.

Nota mental: Em aulas práticas, nunca mais sentar perto da porta.

* * * * * * * * *

Era pra ter sido um dia de cão, tamanha a revolta. Mas ele salvou o meu dia com um texto lindinho e cheio de carinho além de garantir ótimas gargalhadas com o pequeno Baby Huey.

"Dãaaaaaa. Huguinho quer brincar!".

Obrigada, querido.

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