9.13.2002

A hora da verdade

"Que os maus não matem os bons nem os bons matem os maus. Digo sem hesitação que não existem assassinos bons.

Pablo Neruda


Esse é um daqueles típicos posts sem pé nem cabeça, onde eu viajo longe e me perco nas minhas próprias idéias.

Tava assistindo televisão (fato raro, registrem esse momento) e passou o raio da rebelião em Bangu.
E aquele infeliz do Fernandinho Beira Mar.
E um turbilhão de pensamentos invadiu minha mente.
Lembrei de quando comecei a trabalhar e logo depois a minha opção em abandonar a tão sonhada Biologia pra fazer Direito.
Eu vivo reclamando do serviço, mas eu realmente gosto do que faço, embora preferia a época do Atendimento ao Público. Aquilo me preenchia por completo. Juntava tudo. O conhecimento jurídico, essa necessidade louca de fazer o bem sem olhar a quem, o lidar diretamente com seres humanos, o dinamismo (cada dia uma história diferente), a sede de Justiça, de ver as Leis realmente sendo cumpridas, mas principalmente aqueles olhinhos humildes e brilhando de alegria voltando pra agradecer. Eu tinha o mundo e não sabia.

Ó lá.. não disse?... já tô me perdendo...

Bom. O fato é que houve uma metamorfose absurda na minha forma de pensar, com o passar dos anos.
O mesmo Direito que me apaixonou, me decepcionou.
Eu abominava pena de morte, aborto, drogas e outras questões polêmicas.
Entrava em bate-boca fortíssimo com qualquer um que ousasse defender essas causas.
Sou uma defensora convicta da vida, do direito pela vida, das leis e da liberdade pessoal de escolha.
Mas eu repensei muitos assuntos.
Após muita observação do sistema, dos métodos, dos profissionais da lei...
E a convivência diária com isso.
Continuo a Pollyana de sempre, procurando a janela aberta para o sol.
Mas tem coisas que me tiram do sério.
E hoje foi o dia do Sr. Fernandinho Beira-Mar.
A polêmica da reportagem girava sobre suas exigências, sua perspicácia no controle do tráfico, mesmo em outro país, e a sua transferência para um presídio em outro estado.
E um sentimento de revolta me consumiu.
Como um joão-ninguém desse pode ser classificado como Homo Sapiens?!?
Quantas vidas esse indíviduo não tirou, mesmo que indiretamente?
Quantas crianças desviadas da escola, do esporte, da cultura, para servirem de bode expiatório no morro?
Quantas mães aflitas não esperam seu filho voltar pra casa e vêem o mundo desabando quando percebem que ele está entupido até a alma de pó?!?
Ou pior, quantas mães, também aflitas e esperando seus filhos, não têm o alívio de vê-los chegando, mesmo em condições subumanas, pois receberam um telefonema do necrotério?!
E quantas vidas ainda vão permitir que esse infeliz tire?!?
Estão discutindo sua transferência na base do se-o-outro-presídio-quiser.
Papel. Burocracia. Jogo de interesses. Covardia.
Bah! Economizem minha santa paciência.
Será que é tão impossível assim colocar essa coisa incomunicável?
Em solitária? Com roupa listrada e uma bola de chumbo no pé?

...E me veio à cabeça a questão da pena de morte.
Realmente, não tem jeito.
Esse é o tipo do indivíduo irrecuperável.
Pior.
Além de não se recuperar, cria súditos, vira ídolo, e continua tramando e pervertendo almas. E continua trazendo gastos ao Estado. Enquanto outros tantos passam fome, trabalham feito escravos, têm sua infância destruída violentamente.
Sim. Pena de morte pra ele.
E pra tantos outros que fazem o mesmo e ainda continuam protegidos sob o manto do anonimato, da corrupção, do sistema falido e da hipocrisia do maldito jogo de interesses. Sem falar no raio dos Direitos Humanos.
Já defendi muito uma reforma total no sistema carcerário, e continuo defendendo.
Tem gente que merece segunda chance sim. Muitos. Trabalhar muito, para ter um fundo de reserva quando da liberdade, pra não voltar para o crime, mas principalmente pra sustentar a criança que ele fez órfã.
Mas devem fazer por merecer.
Agora outros tantos, não deviam sequer ter o direito de ter nascido.
A questão é abrangente demais, tem assunto pra mais de metro.
É cláusula petra, eu sei. Não pode mexer.
Não existe pena de morte no Brasil.
Ao menos na lei.
Mas o trânsito é uma pena de morte.
Sair a noite, é uma roleta russa.
As clínicas clandestinas de aborto são uma pena de morte.
A exploração do trabalho e a prostituição infantil são sentenças condenatórias.
A miséria, a ganância, o poder, o salve-se quem puder são meios de tortura.
A educação precária é o palco da criminalidade.
Só não vê quem não quer.
E viva a Lei de Talião.

Sorry.
Eu só precisava vomitar isso aqui.
Não tinha jeito.
Minha cabeça já tá cheia demais pra ter que suportar essa palhaçada em silêncio.
Hoje é o típico dia "Para o mundo que eu quero descer".
A menina dos lobos, colorida, musical, saltitante e feliz foi ali e volta já.
Já já passa.


....


...

...


Passou.

:O)

E vamos atrás do tempo perdido.
Eu nasci pra ser bióloga e usar a Lei pra proteger a vida de outra maneira.
A vida que vale a pena.
O resto?
A Lei Tríplice se encarrega.

"Pedirei a abolição da pena de morte até que me demonstrem a infalibilidade do julgamento humano"

Marquês de Lafayette











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