9.24.2002

Back to the past

O passado me atropelou.
Não buzinou, não deu farol, não desviou.
Passou por cima e me arrastou alguns metros.
Incrível isso.
Em minutos, seis anos despencaram sobre a minha cabeça.
Um redemoinho gigante de memórias, uma passando por cima da outra.
Tudo porque a palavra mágica foi dita.
Assim, do nada.
E pensar que antes de mudar pra cá, eu passava diariamente na porta da sua casa.
Confesso, sempre esticava o pescoço, olhava, buscava por você nas redondezas.
Mas com um coração leve, preenchido apenas de saudade.
Saudade das palavras carinhosas, das risadas, das viagens, das noites em claro, tórridas ou companheiras, dos dias frios jiboiando em frente a TV, dos dias quentes passeando ao ar livre, dos cheiros, gostos, surpresas fora de hora e tudo o que foi realmente bom. E às vezes me pegava rindo com algum detalhe.Ao mesmo tempo feliz e agradecida por ter tido a oportunidade de viver tão intensamente esse sentimento. E da esperança de poder vivê-lo novamente com alguém que mereça.
Hoje foi diferente.
Um simples comentário e a taquicardia se instalou.
O autor da palavra mágica percebeu, e não deixou por menos, cutucando uma ferida que ainda dói.
A angústia do post ali embaixo mostrou sua faceta mais cruel.
A lembrança de um amor incondicional que não pode seguir o rumo.
De ver uma jovem se afundando em um poço escuro, sombrio, lodoso.
Sim, você me levou ao fundo do poço, e não satisfeito, tentou me afogar junto com você.
Um poço de lama, alta densidade, onde qualquer movimento brusco tende a te afundar mais.
E eu lutei com toda a minha força para te trazer para fora.
Mas não pude carregar a nós dois.
E, movida por uma força que jamais imaginei ter, tomei a decisão que pesa na minha cabeça até hoje.
Talvez não tenha sido a decisão mais acertada, mas foi a última que me restou.
Eu decidi sair sozinha dali. Sem a ajuda de ninguém.
E você não quis me seguir. Não vou julgar seus motivos.
Nem os meus.
Fui escalando aquelas paredes escorredias.
Dia após dia.
Parei em alguns pontos para recobrar o ar que me faltava, cambaleava, escorregava alguns centímetros, mas não desisti.
E nunca imaginei que esse poço fosse tão alto.
Coração sangrando, dedos em carne viva, exausta até os ossos, eu fui subindo.
Ainda não cheguei ao lado de fora.
Mas já posso sentir o calor do sol.
Não vejo sua luz mas sinto que está próximo.
Talvez mais próximo do que eu imagine.
Como o Pássaro Azul.
As vezes, tentada pela curiosidade, de saber como você anda, arrisco a olhar para baixo.
E os olhos marejados deixam tudo turvo, fico zonza, correndo perigo, inclusive, de despencar dessa altura.
Mas cravo minhas unhas na parede e vou em frente.
Quatro anos subindo, não é possível que esteja tão longe da saída.
Mas, assim que encontrá-la, vou cimentar a entrada.
E levar comigo apenas as lembranças boas, a saudade de algo que tinha tudo para ser lindo, e que você fez questão de afogar, sem sucesso.
Eu tentei te odiar, mas foi em vão.
Porém, há a mágoa que espreme meu coração com mãos de aço.
Dessa eu não consegui me livrar, embora lute com ela diariamente.
E a notícia que chegou hoje, mostra que você continua se afogando no poço que você mesmo criou.
Então, eu vou cuidar de acelerar meu passo, pra que isso fique cada vez mais distante.

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