7.24.2002

A viagem, pelos olhos de uma ambientalista...

Embora Bonito esteja voltada para a conservação ambiental como meio de sobrevivência da população local através do ecoturismo, muito já foi degradado. Descobriram a pérola quando ela já estava gasta, quase sem cor...Mas, em se falando de natureza, sempre há tempo de se reduzir qualquer impacto e tentar recuperar o que foi perdido. A Gruta da Lagoa Azul é um exemplo de uma boa tentativa, ainda em desenvolvimento. Antes, não havia fiscalização nenhuma. O acesso era irrestrito. Resultado??? Pixações nas estruturas que levaram milhões de anos para serem formadas, destruição e bloqueio de crescimento às estruturas ainda em formação, a morte em massa do minúsculo Potiicoara brasiliensis , um crustáceo de aproximadamente 7 mm, que só existe naquele único local, devido aos visitantes, não contentes em apreciar a beleza, insistirem em nadar nas águas azuis...Azuis pela alta concentração de cálcio e magnésio, que em contato com a luz solar provocam o espetáculo de rara beleza.
Hoje, já devidamente tombada pelo patrimônio histórico, a entrada da caverna está segura por uma grade de ferro. A descida (de forma sinuosa e em degraus escavados nas pedras) é feita em pequenos grupos, com acompanhamento de guias, com pequenas paradas ao longo do trajeto. O número máximo de visitantes é em torno de 300 (não me recordo o número exato). Uma das galerias já encontra-se fechada à visitação. Nadar, só em sonho. Em 1992, uma equipe autorizada mergulhou em suas águas, aumentando estimativa de profundidade da caverna para 68m (a marca anterior era 63 m). Nessa expedição, foram descobertas duas ossadas de animais pré-históricos, um tigre-dente-de-sabre e um preguiça-gigante. De todas as hipóteses formuladas, a mais provável é que o preguiça, já doente, foi arrastado lá para dentro pelo tigre,que se alimentou de sua carne e morreu contaminado por alguma doença que portava. Ambas as ossadas estão intactas, sem nenhum osso quebrado, indicando que não houve luta. E estão muito próximas uma da outra. E continuam lá dentro, tornando o passeio mais interessante.
Mas a descida é perigosa e complicada. Crianças pequenas, idosos e pessoas com dificuldade para andar não têm acesso a essa preciosidade. E os que têm esse privilégio, mesmo de forma mais branda, acabam interferindo, de alguma maneira, nas formações. Não há como descer sem ter que se apoiar em alguns trechos. A gordura natural da pele. aliada a repelentes, cremes e outros produtos impregna nos espeleotemas, impedindo a aderência das gotas que futuramente originarão novas formações. Há cordas impedindo a passagem para alguns trechos, tanto pelo perigo de quedas como pelo impacto destrutivo que pode ocasionar. Mas sempre há o turista mais ousado. E, caso um acidente ocorra, uma grande dificuldade da equipe de resgate chegar até o acidentado, o que ocasionaria mais destruição ainda. A depredação, mesmo que branda, ainda existe, e a instalação de corrimãos está em estudo (uma das hipóteses é a instalação de trilhos de alumínio, disfarçados com a cor das formações, não afetando o visual da gruta). Atualmente o IBAMA controla a conservação da caverna, mas não parece mobilizar-se para tanto - uma senhora idosa, moradora do local, que cuida e fiscaliza tudo. Observando com cautela, nos parcos minutos ali dentro, vi como melhor solução a instalação de uma plataforma central, que descesse em linha reta, preservando a maior área possível. No centro há marcas de... (caray, perdi a palavra!!)... (minutos depois)... desabamento! (ainda não é isso)...Deslizamento, Heloisa, Deslizamento!!!... Que indicam que a maior parte da água pluvial desce por ali, portanto, o local mais sujeito a impactos naturais. Se ali se instalasse uma plataforma, com acesso até as proximidades da água, todo o entorno ficaria preservado, não haveria a necessidade de tantos guias, apenas um, ao final do trajeto, para dúvidas, explicações e controle de visitantes inconscientes, que insistem em ultrapassar barreiras ou atirar objetos na água. Isso, de certa forma, traria economia financeira e de profissionais. As explicações poderiam ficar em pequenos painéis, evitando-se a falação sem fim que ecoa e incomoda. Ou, porque não, criar-se no anexo (com lanchonete, sanitários e a tradicional lojinha) um pequeno acervo com fotos e textos explicativos, diminuindo o tempo de permanência dentro da gruta? Bom.. fica aqui a sugestão. Aberta a novas discussões sobre o tema. Sintam-se a vontade para corrigir qualquer viajada minha.

O Aquário Natural é um espetáculo a parte. Muito bem estruturado e organizado. Claro, iniciativa privada. A nascente é conservada de forma integral. Ali, só contemplação de fora da água. A trilha pela floresta é demarcada, não sendo permitido fumar. O equipamento utilizado é esterelizado, tanto pra evitar a contaminação dos visitantes (com micoses e praguinhas afins) como para evitar a contaminação da água. Nem repelente é permitido, para não causar nenhuma alteração. É feito um pequeno treinamento na piscina antes de fazer a flutuação. Você obrigatoriamente tem que passar por uma ducha para tirar resíduos de protetor solar, repelente, cremes e outros. É terminantemente proibido nadar, mergulhar, colocar os pés no chão ou tocar as plantas, formações e animais. Nem precisa. Você fica tão maravilhado que talvez esqueça até mesmo de respirar! Nota 10, com louvor.

As cachoeiras do Mimoso ficam, também, em área particular. Pior. O Rio é divisor de duas fazendas que exploram o mesmo passeio, cada qual do seu lado. E ali, se respira dinheiro. Proteção ambiental é mero estandarte chamativo dos cifrões. Guias despreparados, trilhas que indicam grandes alterações, sinais de depredação o caminho todo. De chorar. Não vejo alguma solução imediata a não ser afogar o dono da fazenda no rio.

A Fazenda Caiman, em Miranda, é outro exemplo a ser seguido.Ainda com falhas e com olhos mercenários, porém já voltados para a preservação, que perceberam ser mais lucrativa que a depredação. Metade da fazenda é pasto, e funciona como uma fazenda comum. A outra parte foi conservada e abriga um sem-número de espécies, tanto da fauna quanto da flora nativa. Os guias (ou caimaners), tanto da população local quanto especialistas contratados são merecedores de aplausos. Safari fotográfico, passeio de chalana e voadeira e caminhadas em trilhas. E o gado e os silvestres convivem em perfeita hamornia. A fazenda perde cerca de 300 cabeças de gado ao ano com os ataques de onças e outros animais, porém o retorno vem, justamente, da preservação dos predadores. Os moradores do local estão proibidos de cultivar hortaliças, com o intuito de evitar a morte dos animais que invadissem as plantações atrás de comida "fácil". Também não podem criar galinhas e porcos, para não correrem o risco de transmição doenças aos animais selvagens. Mas falta incentivo para crescimento dos funcionários. Uma alternativa, que surgiu justamente de uma discussão com os apicultores participantes do Congresso, seria o incentivo à apicultura, que traria uma renda extra a essas famílias, ajudaria na polinização e propagação das espécies nativas, sem causar qualquer impacto negativo à região.
A Fazenda ainda abriga a base do Projeto Arara Azul, iniciativa da bióloga Neiva Guedes, que em quase 4 anos já aumentou a população em 35%, com monitoramento, descoberta e conservação de ninhos. Um espécime adulto chega a valer 80 mil dólares no mercado clandestino, aliado ao artesanato local que utiliza as penas das aves, a extinção estava próxima. Santa Neiva deveria ser canonizada. Deu o sangue para ver o projeto crescer, chegou com um ideal e determinação, e hoje conta com o apoio do IBAMA, com incentivo da WWF e patrocínio da Toyota, entre outras instituições envolvidas.
Já hospedou, também, outros pesquisadores, com outros projetos, como o monitoramento de onças e pesquisa de cervideos.
E aí... algumas idéias borbulharam na cabecinha loira.... hehehe mas isso ainda é segredo. Ao menos por enquanto.

Conclusões da viajante:

- Turista é um bicho esquisito e mal educado.
- Queimadas são ainda o maior problema do cerrado em épocas de seca.
- Quem tem que fazer, não faz.
- Quem faz sem ter obrigação quer retorno financeiro. Aos montes.
- Soluções existem. Falta boa vontade.
- Preservar custa menos que destruir.
- Pra tudo, há mais de uma saída.
- Há muito ainda a ser feito.
- Analistas Ambientais: O poder é de vocês. Vai planeta!!!!

Cenas do próximo capítulo: A viagem, pelos olhos de uma fotógrafa e A viagem, pelos olhos de uma bruxa.

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